Um semiartigo interrompido

Este texto foi iniciado há pouco mais de um ano, e minha intenção era que se transformasse num artigo. Por uma série de razões, incluindo a perda gradual de interesse pelo caminho que escolhi tomar, foi abandonado logo depois das notas preliminares. Dei, portanto, os primeiros passos numa leitura de Morte na Pérsia, de Annemarie Schwarzenbach, mediada por Kierkegaard e Nietzsche. Sendo só um esboço, não é consistente. Como artigo, então, é péssimo. Como texto num site pessoal, é chato. Também não é uma boa introdução à obra de Schwarzenbach. Pode, no entanto, ser um bom exemplo de um tipo específico de fracasso. Considero o que está aqui um amontoado de insights gerais de interesse limitado, curiosos mas não rigorosos, e que servem, ou assim espero, como o começo de uma busca por novas formas de falar de livros, algo que não é nem isso e nem aquilo, que fica no meio do trajeto, sem direção e sem conclusão, e que permite discutir outros assuntos enquanto se discute literatura. Quase não modifiquei a linguagem do primeiro rascunho; tudo o que fiz foi cortar as referências.

 

“Minha criança”, disse condoído, “você não teme o dragão de mil garras de que não se pode fugir?” 

—Gyula Krúdy, O companheiro de viagem

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No início de The Cruel Way, Ella K. Maillart descreve Annemarie Schwarzenbach da seguinte forma:

Calmo como sempre, seu rosto pálido era um símbolo que eu estava tentando decifrar: despido de qualquer pretensão, era um rosto “simples” no sentido de verdadeiro, sem artifício, despreocupado consigo mesmo. Debaixo da massa de cabelos bem cortados, a cabeça parecia grande demais, cheia demais de pensamentos para um pescoço tão frágil. A testa não era alta, mas chamava atenção pela amplitude, densidade, determinação — às vezes próxima da teimosia.

The Cruel Way é um relato da viagem das duas mulheres, que dirigem o Ford de Schwarzenbach desde a Suíça até o Afeganistão. O ano é 1939. Na narrativa de Ella Maillart, Annemarie virou Christina. Como os materiais são escasssos, The Cruel Way continua a ser uma das principais fontes utilizadas por aqueles que se interessam pela vida de Annemarie Schwarzenbach.

Annemarie Schwarzenbach nasceu em Zurique em 1908. De família rica e conservadora, recebeu uma educação superior à das demais mulheres da mesma época. De orientação pacifista — instruída por um padre amigo dos Schwarzenbach, Ernst Metz, que por sua vez era discípulo de Leonhard Ragaz —, participou do movimento Wandervogel.

Ligada à indústria têxtil, a família Schwarzenbach assumiu a inclinação nacional-socialista, o que desapontou Annemarie. Mas havia outros conflitos. A mãe de Annemarie, Renée, nascida em uma família da aristocracia alemã, desaprovava a homossexualidade da filha — ainda que a própria Renée tenha mantido um longo, embora discreto, romance com a cantora de ópera Emmy Krüger. O que incomodava a mãe de Annemarie, aparentemente, era a recusa da filha em ocultar seus relacionamentos com mulheres aos olhos da alta sociedade suíça.

Annemarie era muito próxima dos filhos do escritor alemão Thomas Mann, Klaus e Erika, com quem se engajou na luta antifascista — tendo inclusive ajudado financeiramente uma publicação comandada por Klaus Mann. Ela e Erika se relacionaram durante um breve período, depois do qual continuaram próximas. Lyric Novella, romance mais famoso de Annemarie, de 1933, foi escrito quando Annemarie, longe da família, conviveu com os Mann em Berlim. O protagonista do romance é um jovem rapaz que se apaixona por uma atriz, embora Annemarie, depois de concluir o trabalho, tenha dito que na verdade se trata, ainda que de forma velada, de uma protagonista. Lyric Novella é considerado, hoje, um romance lésbico.

Em 1935, depois de uma tentativa de desintoxicação do vício em morfina, possivelmente para agradar a família, Annemarie propôs um casamento de conveniência ao diplomata francês Claude Clarac, também ele homossexual.

Fez muitas viagens ao longo da vida, que documentou tanto através da escrita quanto da fotografia. No final de Morte na Pérsia, justifica os constantes deslocamentos ao dizer que não aguentaria ficar na Europa, mesmo na neutra Suíça, durante a guerra. “Observar passivamente seria falta de consciência, e isso eu não tolerava. Ainda menos queria lutar, parecia-me falso o papel que outros esperavam que eu representasse.” Mas não é apenas da guerra de que Annemarie Schwarzenbach foge.

Ela morreu em 1942, aos 34 anos, de complicações decorrentes de uma queda de bicicleta durante outra tentativa de se livrar do vício em morfina. Renée queimou boa parte dos escritos que a filha deixou. Existe uma edição com as cartas enviadas por Annemarie aos irmãos Mann, nunca traduzida do alemão.

* * *

1.

 

“Annemarie Schwarzenbach foi, durante meio século, um dos segredos mais bem guardados da literatura europeia”, observa Carlos Vaz Marques no prefácio de Morte na Pérsia. “Só no final dos anos oitenta do século XX se iniciou o processo de redescoberta de uma figura que encarna, de forma ímpar, um certo mal-estar europeu”. Até hoje, no entanto, Schwarzenbach é pouco lida fora da Europa. Pelo menos quatro livros seus — além de Morte na Pérsia, da Tinta-da-China, Com esta chuva, Inverno no próximo Oriente e Todos os caminhos estão abertos, os três últimos da editora Relógio D’Água — foram publicados em Portugal. No Brasil, o que inclui a produção acadêmica, a autora é praticamente desconhecida.

Escrito em meados da década de 1930, Morte na Pérsia permaneceu inédito até 1995. De acordo com um resumo sucinto mas acurado de Vaz, o livro apresenta a “deambulação angustiada” de Schwarzenbach “em busca de qualquer coisa que não saberá nunca definir com exactidão”.

“Este livro trará pouca alegria ao leitor”, escreve Annemarie Schwarzenbach na nota prévia de Morte na Pérsia. “É de falsos caminhos que este livro trata, e o seu tema é a desesperança”. É em Tolstói que pensamos quando ela escreve: “Se por vezes somos felizes sem motivo, nunca podemos ser infelizes da mesma maneira”. A passagem também remete à frase de Nietzsche em A Gaia Ciência — segundo Nietzsche, “a dor sempre pergunta pela causa, enquanto o prazer é propenso a ficar junto de si próprio e não olhar para trás”.

Mas não há causa definida, ou única, para a melancolia de Schwarzenbach.

“O leitor perdoará ainda menos que em nenhuma página se diga claramente por que alguém se deixa levar até a Pérsia, um país distante e exótico, apenas para aí sofrer investidas sem nome”, diz ela. “Não, aqui os nossos critérios e as nossas explicações não valem nada, aqui temos apenas alguém que chegou ao fim de suas forças…” Talvez seja ocioso tentar encontrar uma definição para o mal-estar de Schwarzenbach, quando seus livros são, de modo geral, uma tentativa de falar desse mal sem denominá-lo, ou, o que dá no mesmo, uma busca e uma fuga desse mal. “O perigo não é compreensível, o medo não tem nome — é isso que o torna tenebroso. E há caminhos tão terríveis que deles já não podemos voltar”, escreve. E emenda: “Se assim não fosse, porquê morrer?”.

Schwarzenbach está longe de casa, e descreve as paisagens da Pérsia de acordo com o próprio humor melancólico:

Arrancados à nossa esfera, arrancados às nossas formas familiares de consolo (um rosto que respira, um coração que bate, os cambiantes de uma paisagem amena), temos por fim de nos abandonar aos ventos fortes da montanha, que rasgam e deixam em farrapos as nossas últimas esperanças. Para onde nos voltaremos? À nossa volta, aridez apenas, cordilheiras cinzentas de basalto, desertos amarelos cor de lepra, vales lunares sem vida, ribeiros de greda e rios de prata, onde boiam peixes mortos.

O que ela gostaria, caso se recuperasse da melancolia causada pela viagem prolongada, é de poder tanto amar quanto acusar mais uma vez:

Poder acusar mais uma vez, poder confiar mais uma vez, poder amar mais uma vez! Caímos então na ilusão, grande como o mar, temos fé e rezamos, e quando olhamos para o rosto amado, esquecemos o medo do escuro. Mas como podemos nós proteger-nos do medo?
Ah, despertar mais uma vez sem sentir as suas garras, por uma vez não ficar só e entregue ao medo! Sentir a respiração feliz do mundo!
Ah, viver mais uma vez!

 

2.

 

Morte na Pérsia é dividido em duas partes: a primeira contém basicamente descrições do entorno, que acabam por refletir o estado de espírito da autora. Instalada no isolado vale do Lahr [na grafia de Portugal, Lar], chamado de forma irônica de “vale feliz”, Schwarzenbach parece ainda mais melancólica. (“Todos os caminhos que percorri, todos os caminhos que não percorri, terminam aqui, no ‘vale feliz’, donde não há saída, e que por isso se assemelha já ao lugar da morte.”) A segunda parte contém uma breve e trágica história de amor entre Schwarzenbach e uma moça de origem turca chamada Ialé. Em ambas as partes, os capítulos não necessariamente seguem uma ordem lógica ou cronológica. Muitas coisas não são explicadas.

Tudo gira em torno da melancolia, do sofrimento, da solidão e do medo.

André Malraux, a quem Schwarzenbach encontra em uma breve passagem pela Rússia, é descrito da seguinte forma: “Reflectia com olhar claro sobre as paixões humanas e desmascarava-as, inclinava-se a desprezar tudo o que lhes dizia respeito, excepto o que delas restava: o sofrimento”. Malraux certa vez perguntou a Schwarzenbach que ela esperava encontrar na Pérsia. “Perguntou-me: ‘Só por causa do nome? Só porque fica muito longe?’ E eu pensava na terrível tristeza da Pérsia…”, escreve ela.

Quando lhe perguntam por qual motivo escolheu “uma vida de desconforto”, Schwarzenbach não responde. O livro é, de novo, tanto uma tentativa de encontrar quanto de evitar a resposta.

Em diversos momentos, tem-se a impressão de que ela sofre de uma grave depressão. “Não é doença, não é dor, não é infelicidade, é pior”, escreve. E ainda: “O vento e as montanhas à nossa volta não são hostis sequer, apenas demasiado grandes. Aqui estamos perdidos, e nada tem sentido, e o vento leva nossos esforços…”.

Schwarzenbach flerta com o suicídio em diversos momentos. Ao sair para caminhar, sente medo de “mergulhar a cara na água fresca tanto tempo que todas as sensações de dor e desassossego desaparecerão para sempre”. E é taxativa: “Sim, queria morrer”. A tentação de mergulhar no rio “foi apenas a última tentação, nem sequer foi a pior”.

Em dois momentos do relato, Schwarzenbach imagina-se tendo conversas com um anjo — talvez efeito da morfina, que ela consumia na forma de ópio, talvez um recurso estilístico que surge apenas na narrativa, talvez uma manobra para evitar a solidão desoladora. “O que era que te faltava?”, pergunta o anjo ao saber da vontade de Schwarzenbach de se suicidar. “Esta pergunta terrível deixou-me sem palavras, e sobre mim abateu-se a velha desesperança donde não há saída”, diz. “Não sei”, responde ela finalmente.

Durante todo o relato, ela continua a “suportar a desolação e o desamparo”. “Na Pérsia”, escreve Schwarzenbach, a planície é sempre cercada por montanhas, como barcos encalhados, e pensamos que nos aproximamos delas, mas quando finalmente lá chegamos, vemos que atrás delas começa uma outra planície, que na realidade é ainda a mesma, e nunca chegaremos ao fim.”

E, por mais que flerte com o suicídio, Schwarzenbach não o leva a cabo.

 

3.

 

Para começar a examinar Morte na Pérsia, parto de um capítulo de Either/Or, de Søren Kierkegaard. Trata-se de“The Unhappiest One: An Enthusiastic Address to Symparanekromenoi. Symparanekromenoi é um clube ou sociedade de — o que não precisa ser encarado de forma literal, estando antes mais próximo de um recurso humorístico — pessoas mortas. Pode ser lido de maneira atenuada, como uma sociedade de pessoas mortas em vida, infelizes ou entediadas.

Segundo Kierkegaard, em algum lugar da Inglaterra há uma sepultura com a inscrição “O Mais Infeliz de Todos”. A inscrição pode ser terrível ou agradável, diz ele, dependendo da disposição de quem a enxerga — se ele foi o mais infeliz, bem, pelo menos já está morto. É o humor kierkegaardiano.

Alguém, por curiosidade, decidiu abrir o túmulo, que estava vazio. Podemos então supor, afirma Kierkegaard, que o mais infeliz de todos é aquele que não pode morrer?

Não necessariamente. Os que lembram e os que têm esperança são, para Kierkegaard, os mais infelizes, o que não quer dizer que a mera recordação ou o mero desejo sejam desagradáveis em si mesmos. Apenas os que não estão presentes — não estão inteiramente conscientes de si mesmos — na lembrança e na esperança podem ser considerados os mais infelizes. Kierkegaard lembra que “alguém pode estar ausente […] tanto no passado quanto no futuro”.

Vamos voltar a esses infelizes.

 

4.

 

“Tenho medo do efémero”, confessa Annemarie.

O que escreve na página 69 a coloca, de certa forma, como alguém que tem esperança:

Estendidos nas camas de campanha, sonhávamos com os caminhos do futuro, caminhos que serpenteavam por planícies desconhecidas e que escalavam arduamente as montanhas da esperança. Tínhamos fé, animava-nos uma esperança, esguia como as colunas brancas lá fora, que descrevia um movimento ascendente, para lá em cima se encontrar com a alegria e com a tristeza. Eram noites que tolerávamos com um sorriso.

Schwarzenbach nem sempre se encontra nos cenários que descreve em determinado momento. Em algumas passagens, está apenas recordando. Quando lembra dos “guizos das caravanas”, assinala que a “recordação [é] estranha, […] já muito distante, mas sempre igualmente triste”.

Muitas vezes, por absoluta falta de explicação, o leitor tem de intuir e preencher com a imaginação as informações que faltam. Sabemos que Schwarzenbach foi arqueóloga, fotógrafa e jornalista, e que muitas de suas expedições têm algum interesse etnológico. Outras vezes, no entanto, não há qualquer menção ao motivo que a leva de um lugar a outro.

Em dado momento, Schwarzenbach faz uma concessão e fala do medo de forma mais aprofundada:

Medo? Naquele tempo, eu não conhecia esta sensação nova. Só mais tarde compreendi, quando se tornou demasiado poderosa e quase me aniquilou. E desde então, sobre a desolação magnífica e sobre o excesso de cores daquelas terras, sobre a sua recordação em parte transfigurada e em parte terrível, desde então que paira acima de tudo, como uma cortina de fumo, um medo sem nome. 

Em um alojamento que divide com outros arqueólogos, olhando para o rio que seguia o perímetro do muro do jardim e que corria rumo ao Damavand, Scharzenbach afirma: “Podíamos seguir seu curso até muito longe, mas nem isso trazia consolo. Naquela terra, nada pode consolar”.

Naquele alojamento, com os guizos das caravanas e o rio em que ela acreditava ver peixes mortos, começou o medo. “Foi o princípio do medo. E nunca o poderei vencer nem nunca o poderei esquecer.”

“Tentei tudo ao meu alcance para viver na Pérsia. Falhei. À minha volta via pessoas que também tentavam apenas viver. Lutavam contra os mesmos perigos, e os perigos reais não eram os mais graves.” Na página 78, escreve:

O perigo tem diferentes nomes. Por vezes, chama-se simplesmente saudades de casa, outras vezes, é apenas o vento seco das montanhas que acicata os nervos, outras vezes, o álcool, outras vezes, venenos mais letais ainda. Em certos momentos, não tem nome, nesses momentos somos acometidos por um medo inominável.

Schwarzenbach considera Morte na Pérsia um “diário impessoal. Pois nada pode ser menos pessoal do que descrever este vale — um pintor saberia fazer melhor — ou as montanhas e as planícies e as estradas e os rios”. E na página 86:

Porque não é fácil escrever, exige um esforço terrível e provavelmente inútil. Obriga-nos a recordar, e ainda que nunca possa livrar-me nem por um momento das recordações, nem eu nem aqueles que partilham o meu destino, gostaríamos ao menos de ser poupados a esse conhecimento. Afinal, estamos já acostumados à condição singular deste país: nunca somos livres, não somos “nós próprios”, o desconhecido torna-se mais forte do que nós e leva-nos a estranhar o nosso próprio coração.

Quando Schwarzenbach se apaixona por uma moça, Ialé, as coisas logo pioram. O pai de Ialé, que é tuberculosa e morrerá em breve, é contra a “amizade” das duas. “Percebi então que naquela terra não devemos admitir sentimentos nem confiar em esperanças que perturbem o decurso natural do desconsolo.” E ainda:

Como no dia anterior, e no dia antes desse, via-me exposta a um poder que excedia de longe as minhas parcas forças. Uma e outra vez era atacada por esta terra, por este céu, esta planície imensa e as escarpas das montanhas — onde encontrar refúgio? Não tinha lugar onde pudesse esconder-me, respirar fundo…

Em uma conversa com Ialé, Schwarzenbach diz que não é feliz. “Pensámos sobre o que a palavra ‘felicidade’ quer dizer, e por que razão alguns compreendem o seu sentido, que a outros é recusado uma vida inteira”. E ainda: “As pessoas dizem que procuram a felicidade. Mas como é que procuram uma coisa desconhecida, uma coisa remota, que não podemos sequer imaginar?”. Ao recordar a conversa, observa: “Queríamos falar sobre a felicidade, e nem notámos que era na morte que pensávamos…”.

Em outro diálogo, diz a Ialé: “Temos apenas de acreditar que um dia voltaremos a gostar de viver”.

De fato, ao longo de Morte na Pérsia só encontramos melancolia, entremeada, porém, com tentativas desesperadas — e talvez ainda mais melancólicas, na verdade — de Schwarzenbach de encontrar algum consolo ou algum caminho seguro. Quando fantasia uma conversa com o anjo, chega a “ouvir” deste: “Mesmo a tua mãe deu-te apenas um corpo, e quando começaste a inspirar, não foi ar que inspiraste, mas solidão”.

O diálogo prossegue:

— E tu? — perguntou o anjo, e voltei a reconhecer a sua voz severa e muito distante, — nunca quiseste morrer. Porque é que pensas nisso?
— Penso apenas que nos resta sempre essa saída!
— Dás assim tão pouco valor à morte? Serve apenas para fugires de ti própria?
— Não para fugir de mim, para escapar à vida. A vida dói-me. Até um estranho me pode fazer mal. Um obstáculo tão pequeno pode precipitar-me na queda.

“Não foi por tua livre vontade que vieste a este vale, de onde agora queres escapar?”, pergunta o anjo. A impressão é que ele fala não do vale do Lahr, mas da própria vida de Schwarzenbach.

O anjo é bastante perspicaz, e adivinha vários dos pensamentos e sentimentos de Schwarzenbach: “Admite: és jovem ainda, mas já tentaste todos os caminhos. Eram escapatórias, desvios, falsos caminhos”. E ainda: “Deixaste-te levar até a Pérsia, desejaste até a morte, ah, não penses que podes esconder o que quer que seja de mim”.

Em uma das passagens mais significativas, Schwarzenbach afirma que a “liberdade só existe para quem tem força para a usar”. Na verdade, é difícil imaginar de onde Schwarzenbach extrairia alguma força sem ter alguém que primeiro a ouvisse e compreendesse. Como, diz, “é genuíno o meu sofrimento, e o medo e a aflição, mesmo que para quem me leia eles pareçam não ter objecto e justificação”. Ela sabe que, no fundo, “só me entenderá quem tiver sido também vencido pelo sofrimento e pelo medo e pela aflição”.

E no final do livro, nas páginas 138-9, Schwarzenbach escreve:

Por vezes, o tormento do desassossego abranda, consigo respirar fundo e voltar a mim. Viro-me então para todos os lados e não sei para onde me dirigir, a perplexidade é um espinheiro que me bate na cara. O futuro está morto, nele não há uma brisa, não há cor, não há sombra nem luz, e até lá chegar estende-se um longo caminho que eu já não posso percorrer.
Conheço agora os obstáculos: montanhas, deserto e mar encastelam-se à minha frente, abrem-se diante dos meus olhos, dei muito de mim para os superar, sempre sustida por uma esperança que não queria sequer nomear — pois só assim conseguimos viver, sustidos por esperanças sem nome. Pessoas felizes confundem-nas com objectivos que marcam o seu caminho como Paixões de Cristo finamente pintadas. Mas as minhas cidades chamam-se Constantinopla, Alepo, Bagdade, Persépolis. E depois vieram as cidades sem nome, esquecidas e soterradas, as colinas com ruínas. E depois vieram ainda os caminhos sem nome, as montanhas sem nome e este lugar, por nós baptizado de “o vale feliz”.
[…]
Mas estará votado à indiferença tudo o que empreendemos, mesmo quando empenhamos todas as nossas forças e vivemos a nossa vida até o fim sem cair no desespero? […] Serei alguma vez chamada a prestar contas, apenas porque não enfrentei o desespero atormentado e sem nome?

 

5.

Bússola, de Mathias Enard, romance vencedor do Goncourt, traz uma boa passagem sobre Annemarie Schwarzenbach. Franz, um intelectual orientalista, pensa em Sarah, seu grande amor e estudiosa da obra de Schwarzenbach:

Entre os livros, as obras de Annemarie Schwarzenbach, é claro, e em especial O vale feliz e A morte na Pérsia [sic], nos quais a suíça descreve o vale do Lahr, ao pé do monte Damavand. […] Havia também um volumoso livro de imagens sobre a vida de Annemarie; diversas fotos que ela mesma tinha feito durante as viagens e retratos realizados por outros, em especial seu marido, o secretário de embaixada Clarac — num deles vêmo-la seminua, ombros estreitos, cabelos curtos, a água do rio batendo em seus joelhos, os braços ao longo do corpo, vestindo somente um short preto. A nudez de seu peito, a posição das mãos, pendendo ao longo das coxas, e o rosto surpreso lhe dão um ar frágil, uma inexpressividade triste ou vulnerável, na paisagem grandiosa do vale de altitude margeado por juncos e arbustos espinhosos, e tendo no alto as ladeiras secas e rochosas das montanhas. Passei noites inteiras de solidão folheando esse livro de fotografias, no meu quarto […]; li o relato de sua viagem com Ella Maillart, da Suíça à Índia. Mas era nos dois textos de febre amorosa, de melancolia narcótica, que Annemarie situa no Irã, e dos quais um é o reflexo mais distanciado do outro, muito íntimo, que eu buscava alguma coisa de Sarah, o que Sarah teria me contado, a razão de sua paixão pela vida e obra desse “anjo inconsolável”. As duas obras estavam sublinhadas e anotadas a caneta; podia-se retraçar, dependendo da cor das anotações, as passagens que tinham a ver com a angústia, com o medo indizível que assaltava a narradora de noite, os medos relativos à droga e à doença e aqueles relativos ao Oriente, à visão do Oriente e da jovem. Lendo suas notas (rabiscos, marginália preta que eu devia decifrar mais do que ler) eu podia entrever, ou acreditava entrever, uma das questões fundamentais que não só estavam subentendidas na obra de Sarah como tornavam tão cativantes os textos de Annemarie Schwarzenbach — o Oriente como resiliência, como busca da cura de um mal obscuro, de uma angústia profunda. Uma busca psicológica. Uma pesquisa mística sem Deus, sem outra transcendência além do mais profundo de si mesmo, procura que, no caso de Schwarzenbach, resultava num triste malogro. Não há nada nessas paragens para facilitar sua cura, nada para aliviar seu sofrimento: as mesquitas permanecem vazias, o mirabe não passa de um nicho numa parede; as paisagens estão ressecadas no verão ou inacessíveis no inverno. Quando encontra o amor, junto de uma jovem meio turca, meio tchercassi, e pensa encher de vida as paragens desoladas que deixou perto das ladeiras do Damavant flamejante, o que descobre é a morte. A doença da amada e a visita do Anjo. O amor não nos deixa dividir os sofrimentos do outro, assim como não cura os nossos. No fundo, estamos sempre sozinhos, dizia Annemarie Schwarzenbach, e eu temia, ao decifrar suas notas na margem de A morte na Pérsia [sic], que fosse também o pensamento de Sarah […].

 

6.

 

Em alguma medida, a infelicidade tal como descrita por Søren Kierkegaard tem influência hegeliana. “Essa consciência infeliz, cindida dentro de si, já que essa condição de sua essência é, para ela, uma consciência, deve ter numa consciência sempre também a outra”, escreve Hegel na Fenomenologia do Espírito.

Para Kierkegaard em Either/Or, não é estritamente infeliz aquele que ainda está presente de uma maneira ou de outra no passado ou presente. Só quando não se pode estar presente em si mesmo na esperança ou na lembrança é que existe um problema.

A memória é majoritariamente o elemento da infelicidade, afirma Kierkegaard, porque a característica mais marcante do passado é que ele já passou, enquanto o futuro ainda está por vir. De certa forma, o futuro está mais próximo do presente do que o passado.

Para que o indivíduo esperançoso esteja presente no futuro, o futuro precisa adquirir realidade, precisa ser factível, alcançável. O passado, para que possa se fazer presente para o indivíduo que o relembra, tem de ter sido real. Mas quando o futuro não tem realidade, ou quando alguém relembra um passado que não aconteceu, aí há a infelicidade genuína, segundo Kierkegaard.

Também há as circunstâncias em que alguém perde a esperança, e, ao invés de se voltar para o passado, prefere continuar a ser uma pessoa que deseja, que aguarda. Ou quando alguém que relembra perde a memória ou a substância mesma do passado, e prefere continuar a lembrar. Nesses casos, diz Kierkegaard, há outra forma de infelicidade genuína.

Segundo Kierkegaard, assim, “o que impede [alguém] de estar presente na esperança é a memória, e o que impede [alguém] de estar presente na memória é a esperança”. Por um lado, alguém sempre espera por algo que deveria ser lembrado, e a esperança é continuamente frustrada, e nessa frustração a pessoa descobre que não é como se o objetivo houvesse sido deslocado para mais longe, ao contrário, ele apenas já ficou para trás, já foi experimentado, ou, pior, deveria ter sido experimentado. Por outro lado, alguém continuamente lembra de algo pelo qual deveria esperar. Para esse alguém, o futuro é algo que deve ser retomado: ele já o experimentou em seus pensamentos, e aquilo que ele experimentou é algo que ele lembra em vez de esperar. “Consequentemente, aquilo por que ele espera se encontra atrás dele, e aquilo que ele relembra se encontra em sua frente”. É o caso de Schwarzenbach.

A infelicidade de Schwarzenbach também diz respeito ao período histórico, tanto no sentido da guerra quanto no sentido de uma obrigação de reprimir a óbvia homossexualidade, o que, no entanto, excede o que é dito aqui. De qualquer forma, também serviria, nesse caso mais amplo, a frase de Kierkegaard, aqui transposta para o feminino: “Seu infortúnio é que ela veio ao mundo cedo demais, e, portanto, está constantemente chegando tarde demais”.

 

UMA SAÍDA NIETZSCHIANA

 

1.

 

Agora podemos analisar Nietzsche a partir do que foi visto de Kierkegaard.

N’A Gaia Ciência, Nietzsche retifica aquilo que havia dito anteriormente a respeito do romantismo:

Vê-se que eu desconhecia, naquele tempo, tanto no pessimismo filosófico quanto na música alemã, aquilo que constitui propriamente seu caráter — seu romantismo. O que é romantismo? Toda arte, toda filosofia, pode ser considerada meio de cura e de auxílio a serviço da vida que cresce, que combate: pressupõe sempre sofrimento e sofredores. Mas há duas espécies de sofredores, primeiro os que sofrem de abundância de vida, que querem uma arte dionisíaca e, do mesmo modo, uma visão e compreensão trágica da vida — e depois os que sofrem de empobrecimento da vida, que procuram por repouso, quietude, mar liso, redenção de si mesmo pela arte e pelo conhecimento, ou então a embriaguez, o espasmo, o ensurdecimento, o delírio.

Que há alguma inclinação romântica na escrita de Annemarie Schwarzenbach, talvez um resquício do movimento Wandervogel, não restam dúvidas. Mas é difícil encaixar Morte na Pérsia em uma das definições propostas por Nietzsche, uma vez que ambas parecem servir para definir o estilo e a visão de mundo da suíça. O sofrimento de Schwarzenbach deriva da abundância ou do empobrecimento de vida? Ela sem dúvida pleiteia uma compreensão trágica da vida, ao mesmo tempo em que procura por repouso e redenção.

Nietzsche continua:

O mais rico em plenitude de vida, o deus e homem dionisíaco, não somente pode permitir-se a visão do terrível e problemático, mas até mesmo o ato terrível e todo luxo de destruição, decomposição, negação; nele, o mau, o insensato e o feio aparecem como que permitidos, em consequência de um excedente de forças geradoras, fecundantes, que de cada deserto está ainda em condição de criar uma exuberante terra frutífera. Inversamente, o mais sofredor, mais pobre de vida, teria a máxima necessidade de brandura, boa paz, bondade, no pensar e no agir, se possível um Deus, que seria bem propriamente um deus para doentes, um “salvador”; assim também de lógica, da inteligibilidade conceitual da existência — pois a lógica tranquiliza, cria confiança —, em suma, uma certa estreiteza cálida que protege do medo e uma inclusão em horizontes otimistas.

A partir desta passagem de Nietzsche, o relato de Morte na Pérsia parece pender para o que o filósofo chama de “mais sofredor”, “pobre de vida”. A narradora tem absoluta necessidade de um “salvador”, alguém que a compreenda e a ajude, pela mera compaixão, a escapar do sofrimento. Ainda assim, uma inquietação persiste. Em vários momentos, Schwarzenbach se aproxima de, ou flerta com, o “terrível e [o] problemático”, a “negação”.

“Em vista de todos os valores estéticos”, escreve Nietzsche, “sirvo-me agora desta distinção capital: em cada caso, pergunto ‘aqui foi a fome ou o supérfluo que se tornou criativo?” Também é possível, diz, “reparar se é o desejo de tornar rígido, de eternizar, de ser, que é a causa do criar, ou então o desejo de destruição, de mudança, de novo, de futuro, de vir-a-ser”.

Aqui as coisas se complicam ainda mais. Morte na Pérsia encarna ambas as coisas. Schwarzenbach quer ser e criar. Quer e precisa eternizar, talvez como última saída para o sofrimento — a consiência de que deixou algum legado. Ao mesmo tempo, tem desejo de mudança e de futuro.

“Mas essas duas espécies de desejos se demonstram, consideradas em profundidada, ainda suscetíveis de dupla interpretação”, escreve Nietzsche. Ele se refere não a uma fusão da falta e do excesso de vida, mas apenas interpreta de formas distintas a origem mesma de cada uma das duas noções. “O desejo de destruição, mudança, vir-a-ser, pode ser a expressão da força repleta, grávida de futuro (meu terminus para isso, como se sabe, é a palavra ‘dionisíaco’), mas pode ser também o ódio do malogrado, do desprovido, do enjeitado, que destrói, tem de destruir, porque para ele o subsistente, e aliás todo subsistir, todo ser mesmo, revolta e irrita”. Por fim, a “vontade de eternizar requer, igualmente, uma dupla interpretação. Pode, em primeiro lugar, provir de gratidão e amor: — uma arte dessa origem será sempre uma arte da apoteose, talvez ditirâmbica”. Ou “pode ser também aquela tirânica vontade de alguém que sofre gravemente, de um combatente, de um torturado, que gostaria ainda de moldar o mais pessoal, mais único, mais estreito, propriamente a idiossincrasia de seu sofrimento, em lei e coação obrigatória, e que todas as coisas como que toma vingança, a imagem de sua tortura. Este último é o pessimismo romântico em sua forma mais expressiva”.

Temos então, segundo Nietzsche, duas gênesis para cada uma das duas noções. O excesso de vida pode tanto ser explicado pela vontade de criação como de destruição. Já o empobrecimento de vida pode ser tanto vontade de eternizar a gratidão como o sofrimento. Isso nos ajuda a explicar a narrativa de Morte na Pérsia?

Em certo sentido, sim. Nietzsche ajuda a apontar um caminho ao assinalar a distinção. Schwartzenbach, então, parece carregar o aspecto positivo de um e o negativo de outro, fazendo com que seu relato contenha, isso sim, tanto o excesso como a falta de vida. Ela tem vontade de criar, no sentido de projetar um futuro, de aspirar à mudança. Embora haja revolta na escrita de Schwarzenbach — com aqueles que não a escutam, com o pai tirano de Ialé, com a própria solidão —, essa revolta não se traduz em tentativa de destruição, apenas, em alguns momentos, de autodestruição. Por outro lado, ela tem necessidade de eternizar o sofrimento [“Tenho medo do efémero”], de moldar, nas formas que descreve a partir da escrita, a idiossincrasia dessa infelicidade.

Penso que é possível propor uma fusão da distinção nietzschiana da falta e do excesso de vida, mas apenas se considerarmos a perspectiva de Kierkegaard segundo a qual a memória e a esperança se interpenetram a fim de criar uma condição paralisante — como a de Schwarzenbach.

Resta em Schwarzenbach um resquício de esperança no futuro. É o que a faz continuar avançando, ainda que não tenha uma ideia clara de qual será o destino final. É também o que a impede de colocar um fim à própria vida. Ao mesmo tempo, ela está presa a um passado — a culpas e recriminações — do qual insiste em fugir. Sendo o passado algo tão presente a ponto de parecer ainda ameaçador, fica claro que a infelicidade de Schwarzenbach vem, em certa medida, de não conseguir ultrapassá-lo. A força motriz por trás de seus constantes deslocamentos é, portanto, tanto uma fuga quanto uma busca, o que se traduz em sua escrita.

Schwarzenbach rememora e espera, embora não esteja inteiramente presente nem na recordação e nem na esperança, como definiu Kierkegaard. Nesse sentido, ela sofre tanto daquilo que Nietzsche apontou como excesso quanto do que designou como falta de vida — embora não haja, na passagem citada, nenhuma referência a uma interpenetrabilidade dos conceitos, que só podem, portanto, ser explicados a partir do capítulo de Either/Or. É aqui que dois pensadores tão diferentes acabam por se complementar.

 

2.

 

Vamos voltar a Kierkegaard para entender melhor.

É neste ponto que, penso, Kierkegaard descreve perfeitamente o que ocorre com Schwarzenbach. Traduzo de forma aproximada — substituindo o he por she — uma passagem decisiva, extraída da página 217 de Either/Or:

Deixada por sua própria conta, ela encara, sozinha, o mundo indócil. Não há um presente ao qual se ligar; não há passado a desejar, porque o passado ainda não chegou, e não há futuro pelo qual ansiar, porque o futuro já é passado. Sozinha, ela tem o mundo inteiro contra si como o “Tu” com o qual se encontra em conflito permanente. Todo o resto do mundo é para ela uma única pessoa, e essa pessoa, companheiro inseparável e inoportuno, é o equívoco. Ela não pode se tornar velha, uma vez que nunca foi jovem; ela não pode se tornar jovem, porque já está velha. Em certo sentido, ela não pode morrer, porque nunca viveu; em certo sentido, ela não pode viver, porque já está morta. Ela não pode amar, porque o amor sempre ocorre no presente, e ela não tem presente, não tem futuro, não tem passado, e, ainda que sua natureza seja complacente, ela odeia o mundo apenas porque o ama. […] Ela é fraca, não porque lhe falte força, mas porque a própria força a torna impotente.

O que interessa aqui é a maneira como as duas coisas — o passado (a lembrança) e o futuro (a esperança) — confluem.

 

3.

 

Em certo sentido, há em Nietzsche um estímulo para a felicidade a partir da infelicidade, algo que não necessariamente se encontra em Kierkegaard:

Quer-me parecer que de dor e infelicidade sempre se fala com exagero, como se fosse uma questão de arte de bem viver exagerar nisto: em contrapartida, cala-se obstinadamente que contra a dor há um sem-número de meios de alívio, como atordoamentos, ou a pressa febril dos pensamentos, ou uma situação tranquila, ou boas e más recordações, propósitos, esperanças e muitas espécies de orgulho e simpatia, que têm quase o efeito de anestesia: enquanto nos graus supremos da dor já intervêm por si mesmos desfalecimentos. Sabemos muito bem pingar doçura em nossas amarguras, em especial nas amarguras da alma; temos recursos em nossa bravura e sublimidade assim como nos mais nobres delírios da submissão e da resignação. Uma perda dificilmente continua sendo uma perda por uma hora: de algum modo, com ela, também um presente caiu do céu — uma nova força, por exemplo: e mesmo que seja apenas uma nova ocasião para a força!

Como escreve Albert Camus em O homem revoltado, em sua interpretação da obra de Nietzsche: “Dizer sim ao mundo, reproduzi-lo, é ao mesmo tempo recriar o mundo e a si próprio, é tornar-se o grande artista, o criador”. O que Annemarie Schwarzenbach faz, do alto de seu sofrimento, não é mais do que recriá-lo a partir de seus moldes, dar a ele a forma de seu sofrimento — que contém em si mesma, apesar da melancolia, e apesar de ter dito que o leitor não encontrará ali qualquer alegria, uma promessa de superação.

2 Comentários Um semiartigo interrompido

  1. Graça

    Olá, Camila!
    Estupenda análise da obra!
    Sua maneira de expressar a respeito do livro lembra um ensaio psicanalítico.
    Amei.

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